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quinta-feira, 26 de julho de 2012

Me ensina a voar?


A noticia não tinha sido boa, alias fora péssima. Tinha chegado a se iludir pensando que tudo se resolveria, mas esteve enganado, o que ele mais queria ter evitado ouvir, ele tinha ouvido nessa manha. Sabemos que vamos morrer inevitavelmente de um jeito ou de outros todos vamos morrer, mas o pior de tudo, ou melhor, para algumas pessoas, era saber que o seu fim estava próximo, e pior ela vinha cedo demais, ele não tivera tempo de fazer quase nada. Iria deixar muita coisa para traz, sonhos, projetos... sem nunca ate ter experimentado um amor.
Agora estava ali, sentado no banco daquela praça, triste, desanimado, pensando o que ele faria do resto da sua vida, o engraçado era que esse resto, era muito curto. Tinha acabado de sair do consultório medico, onde seu oncologista havia lhe dado apenas mais 4 meses de vida, o tumor que crescia naquele instante em seu cérebro era inoperável e ia lhe tomar a vida, dali a poucos 4 meses. Era angustiante pensar nisso, mas fazer o que? Iria deixar sua mãe que era viúva ainda mais sozinha, na verdade ela começara a namorar fazia pouco tempo, mas seria um impacto muito grande para ela. Filhos? Não, não tivera nenhum, nunca namorara, parecia que Deus apenas brincava com ele. Vinte e um anos de vida e ele não tinha nada, não tinha alcançado nada, e morreria sem ter feito coisa alguma.
O que mais o atormentava é que ele iria partir sem deixar ninguém sentindo a falta dele, sem ter tido uma namorada, uma mulher que o amasse, e agora Inácio estava ali, sentado e na sua cabeça discutindo com Deus, porque tanta crueldade? O que ele tinha feito? Onde estava a sua felicidade? Porque não acabava ali mesmo sua angustia?
Estava perdido nesses pensamentos que nem notou uma sombra e aproximando dele e o chamando, só foi notar, quando a sombra relou em sou ombro e o chamou:
- O senhor esta bem? – uma voz suave e preocupada falou.
- Oi?
Foi quando olhou e viu parado na frente dele uma moça, vestia uma saia jeans ate os joelhos com uma meia calça de lã preta e ia acabar num par de botas, na parte superior vertia uma camiseta preta básica e um moletom cinza escuro por cima, segurava um guarda-chuva que agora protegia os dois de tomarem chuva e ficarem molhados.
Ele ficara tanto tempo ali sentado, triste que nem notara q começara a chover e ali estava, diante de uma linda moça. Ele ficou olhando para ela, o rosto dela era lindo, meio redondo, olhos negros que brilhavam, o cabelo estava amarrado num rabo de cavalo que ia ate a cintura. Ele ficou tanto tempo olhando para ela, que ela sorriu meio sem graça e falou:
- O senhor esta bem? Precisa de ajuda? Tem um hospital ali na outra quadra eu levo o senhor La se precisar.
Depois de perceber o papelão que estava fazendo, Inácio resolveu abrir a boca:
- Eu estou bem, obrigado. Mas não preciso de hospital .... Eles já não podem fazer mais nada por mim. E o senhor esta no céu. Meu nome é Inácio – e esticou a mão em direção da moça.
- Prazer, me chamo Sara – falou retribuindo o aperto de mão – Gostaria de sair da chuva? Meu tio é o dono daquela lanchonete ali – apontou para um estabelecimento q ficava  do outro lado da praça.
Sem saber muito o que estava fazendo Inácio se levantou e dividindo o guarda-chuva de Sara, se deixou levar em direção a lanchonete.
Ali chegando sentaram numa mesa, ela pediu para o tio fazer um chocolate quente enquanto ela entrava na casa que fica aos fundos e trazia uma toalha e uma camiseta para ele se trocar. E ali ficaram, conversaram, lancharam, a conversa fluiu, falaram de quase tudo, mas Inácio não comentou sobre sua doença terminal. Ali ficaram ate o início da noite. Quando perceberam que estava tarde, Inácio se levantou, agradeceu por tudo e tentou pagar pelo chocolate quente e pelo lanche que tinha comido, mas o tio de Sara, não aceitou, deixou como presente. Sara o levou ate a porta da lanchonete deram um beijo na bochecha de despedida, meio sem jeitos, e Inácio saiu caminhando sozinho pela rua, aquela hora da noite a praça estava vazia e já não chovia. Ele já estava terminando de cruzar a praça quando Sara voltou correndo para ele, ela não parou, entregou – lhe um papel, lhe deu mais um beijo e voltou correndo para a lanchonete. Inácio guardou o papel no bolso sem abri-lo e foi para sua casa. Quando chegou explicou e contou tudo para mãe, sem nada lhe esconder, e os dois passaram a noite na sala chorando.
Apenas no outro dia, que Inácio lembrou do papel em seu bolso, nele estava escrito um numero de celular e uma pequena frase: gostei muito de você, se precisar de um guarda-chuva me ligue, Beijos”
Aquela simples frase o deixou feliz, e sem pensar, ligou para Sara, e combinaram de se ver novamente.
A partir daí começou uma grande amizade, se viam todos os dias, passeavam, passavam horas no telefone, brincavam, iam ao cinema, já andavam de mãos dadas, mas Inácio nunca contou que só teria mais 4 meses de vida e ele se entristecia por isso, não era justo que logo agora que tinha conhecido uma pessoa tão legal, ele teria q abandoná-la.
E assim foi, passaram três meses nessa amizade colorida, já se beijavam, abraçavam, mas nunca tinham mencionado em namoro, sempre que ela tocava no assunto, Inácio dava um jeito de fugir, ele não queria dar esperanças para ela, nem contar a verdade. Mas nesse meio tempo, ele piorava, ficava mais magro, mais fraco, o câncer o comia por dentro. Mas ele fazia de tudo para ela não perceber, ia ao medico escondido, tomava remédios escondido, vomitava sangue sem que ela percebesse, para ela, ele estava apenas com uma anemia sem importância.
Mas apesar de toda a alegria que passava ao lado dela durante o dia, ao deitar, ele chorava e em pensamentos brigava com Deus.
- Porque isso? Não terei direito a uma vida completa? Porque me mandar logo agora alguém como ela? Eu a amo mas não posso nem pedir em namoro, porque não vai durar, vou morrer e vou deixá-la. Porque tudo isso? Alguém ai em cima não gosta de mim, cadê meu anjo da guarda? Sou tão mal assim que nem tive um?
Toda noite era esse tormento, dormia chorando, e acordava sorrindo com uma mensagem de bom dia de Sara pelo celular. E assim se passaram três messes e meios, ele já sentia que seu fim estava próximo, já não conseguia caminhar muito, tinha tremores pelo corpo, sua visão embasava ele já quase não saia de casa, sempre chamava Sara para ir assistir um filme com ele, e ali passavam a tarde toda, deitados juntos assistindo e namorando. Ate que um dia:
- Amor, quando vai me pedir em namoro? Colocar um anel no meu dedo? – ela perguntou
Ele olhando para ela, deixou cair uma lagrima.
- Porque chora? Não quer namorar comigo? Sei que esta doente, essa anemia esta ruim, mas você não vai morrer, vai passar.
- Deus sabe, como eu quero namorar contigo, e viver para sempre ao seu lado.
- E então?
Ele pensou rapidamente e sabendo que seu fim era próximo, resolveu lhe propor:
- Amor, eu te amo, você mudou a minha vida, prometo que sempre vou estar do seu lado, de um jeito ou de outro, vou viver para sempre com você.
- Eu também meu amor. Juro que vou te amor para sempre e por todo o sempre viver ao seu lado.
Inácio deu um sorriso sincero, e se esforçou para não deixar que uma anciã de vomito de sangue saísse. E mais uma lagrima saiu de seus olhos
- Amor, eu te peço em namoro, mas antes quero fazer um teste com você.
- Qual?
- Você consegue ficar um dia inteiro sem estar ao meu lado, e sem entrar em contato comigo?
- Porque pergunta isso? – ela o olha desconfiado.
- Se você conseguir ficar esse tempo sem me ver ou falar comigo amanha amor, eu te peso em namoro no outro dia.
- E porque quer ficar um dia sem mim?
Sem saber o que falar, e não querendo contar a verdade, para poupa-la, ele fala a primeira coisa que lhe vem a mente:
- Vou comprar a sua aliança amor. Vai ser surpresa, quero te poupar.
- Do que? Serio que vai comprar a aliança?
Ele confirmou, e ali se beijaram e passaram a primeira noite juntos, ao amanhecer, ela se despediu dele, lhe beijou e disse:
- Te vejo daqui 24 horas meu amor. Amo você.
E ali ela saiu, para passar seu longo dia longe do seu amor. Para não correr a tentação, ela desligou o celular e o deixou no fundo da bolsa, foi para sua casa, tomou banho, e pensou como passar um dia sem ver ele. Resolveu ir para o shopping, ir na casa de amigas, e dormiu cedo naquele dia, ao amanhecer, se trocou e correu para casa de Inácio, estava com muitas saudades e não via a hora de poder vê-lo.
Ao chegar na casa dele, estranhou a movimentação, algo estava errado, aviam muitos carros parados na frente da casa dele, e o portão e a porta da frente estavam abertos. Ela criou coragem e entrou, La dentro encontrou o que ela menos esperava, um caixão no meio da sala, e o pior de tudo, seu amor, Inácio estava dentro dele.
Ela não chorou, ficou apenas ali parada.
A mãe de Inácio se aproximou dela, vinha acompanhada do namorado, ela chorava, ao chegar perto lhe estendeu um envelope:
- Eu não sei o que dizer Sara minha filha, foi a vontade dele, esta tudo explicado aqui. Ele escreveu para você – falando isso, entregou o envelope a Sara
Ela pegou o envelope, deu meia volta e saiu da casa. Não podia mais ficar ali, ela caminhou ate chegar à mesma praça onde tinham se conhecido, e sentou no mesmo banco. Só depois abriu o envelope e leu a carta, mas ela já sabia de tudo.
Meu amor
Parabéns, você conseguiu, passou um dia sem mim. Me faz um favor? Repita isso para o resto de sua vida...

Me desculpa por tudo, você foi um anjo em minha vida. Quando me conheceu naquela praça, eu havia acabado de receber a noticia q ira morrer dentro de 4 meses, e justo nesse dia eu conheci a minha salvação. Ao seu lado foram os melhores 4 meses da minha vida. Mas hoje eu não aguentei e parti. Nunca te contei nada porque não queria te preocupa, mas pensei só em mim mesmo, e em vez de me afastar eu me apaixonei por voce, me desculpa se vou te fazer sofre.
Mas minha promessa ainda vale: Vou viver para sempre ao seu lado, Te amo, e um dia nos veremos.
Ass. “Inácio”

Quando chegou ao fim do texto, já não existia Sara sentado ao banco, estava vazio, e uma folha caia numa possa de água da chuva anterior.



Epilogo

Inácio acordou e não sabia onde estava o ambiente estava muito claro, uma luminosidade branca muito forte, lhe ardiam a visão, ele estava deitado numa maca. Sentou nela e ouviu uma voz:
- Que bom que acordou Inácio, estávamos te esperando.
- Quem é você? Onde eu estou?
- Do que se lembra filho?
- De eu tomando um líquido amargo e depois, muito sono, e ai... EU morri?
- É o que parece.
- Você é Deus?
- Não – falou o homem, soltando uma gargalhada – Eu sou Uriziel, seu anjo da guarda.
- ...
- Sem palavra filho?
- É
Uriziel se aproximou de Inácio. Ao ver o homem, Inácio se espantou, e pulou da maca, ficando em PE, diante do anjo.
- O senhor – ele falava gaguejando e tremendo – O senhor é o tio da Sara, o senhor também morreu?
- Eu? Não, definitivamente não – deu outra risada – Eu estava no meu corpo humano, quando voce me viu com a Sara.
- E ela como esta?
- Bem.
-Que bom...
- Porque fez isso?
- Isso o que? Não deixar que ela participasse dos meus últimos minutos? Não preferi partir sozinho, poupá-la. Mas fui egoísta, não devia ter me apaixonado, era passageiro. Agora a deixei lá sozinha, triste. Posso ser o anjo da guarda dela? – perguntou demonstrando uma grande animação.
- Lamento, mas não.
Inácio fica triste novamente.
-Você quer vê-la?
-Sim
- Olhe para traz.
Incrédulo, Inácio obedeceu, e ao se virar, deu de cara com Sara. Só que dessa vez, ela estava num vestido branco, possuía assas enormes, com penas de um tom cinza claras, seu cabelo estava solto e ela sorria.
- Você também morreu?
- Não – ela falou sorrindo – Eu já estava morta quando te conheci, já era um anjo. Eu era sua alma gêmea, mas eu morri num acidente de transito há um ano. Eu te via daqui, triste, chorando sentindo minha falta. Então uma ordem do Homem, me permitiu descer ate a terra, e acompanhar você, te trazer paz e felicidade nos seus últimos dias. Apaixonei-me de verdade por você.
- Então você sabia de tudo? Que iríamos nos ver aqui, depois?
- Sim e não. Eu sabia que você iria morrer sim, mas não tinha certeza se eu poderia te ver aqui.
- Como assim?
- Isso eu respondo – disse Uriziel – Você era humano, tinha alma, você poderia acabar no inferno dependendo dos seus atos. Mas o que te trouxe aqui, foi por ter se sacrificado, para não deixar Sara sofrer, por resistir sozinho, pelo seu bom coração. E acima de tudo, sua promessa de viver para sempre ao lado dela. O amor de vocês é tão forte que uniram os dois nesse plano. Acho que aqui sim, vocês vão poder ficar juntos para Todo o Sempre – ele abre um sorriso. Enfim, meu serviço aqui terminou, Sara vai te mostrar os procedimentos, você agora é um anjo filho. Vamos nos ver muito. Mas acho que ate mesmo vocês, precisam de um tempo a sós.  Alias só morremos uma vez na vida, e nos tornarmos anjo merece uma comemoração. Vou deixar os anjinhos a sós. Ate.
E dizendo isso, Uriziel, bateu assas e saiu voando.
Inácio se vira para Sara e a abraça forte, lhe beija e pergunta:
- E agora?
- Agora? – responde ela – Agora você vai ter que me agüentar para sempre ao seu lado.
- Sabe de uma coisa? Eu vou adorar isso. Amo você, minha anja. Você me ensina?
- A que?
- Voar, sempre quis fazer isso.
E assim sorrindo, se deram as mãos e saíram dali voando juntos, teriam muito tempo para conversar, se amar e aprender novas lições, mas não tinha pressa, teria toda uma eternidade juntos.


 Por :Jônatas  Oliveira  Assis

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