A noticia não tinha sido
boa, alias fora péssima. Tinha chegado a se iludir pensando que tudo se
resolveria, mas esteve enganado, o que ele mais queria ter evitado ouvir, ele
tinha ouvido nessa manha. Sabemos que vamos morrer inevitavelmente de um jeito
ou de outros todos vamos morrer, mas o pior de tudo, ou melhor, para algumas
pessoas, era saber que o seu fim estava próximo, e pior ela vinha cedo demais,
ele não tivera tempo de fazer quase nada. Iria deixar muita coisa para traz,
sonhos, projetos... sem nunca ate ter experimentado um amor.
Agora estava ali, sentado no
banco daquela praça, triste, desanimado, pensando o que ele faria do resto da
sua vida, o engraçado era que esse resto, era muito curto. Tinha acabado de
sair do consultório medico, onde seu oncologista havia lhe dado apenas mais 4
meses de vida, o tumor que crescia naquele instante em seu cérebro era
inoperável e ia lhe tomar a vida, dali a poucos 4 meses. Era angustiante pensar
nisso, mas fazer o que? Iria deixar sua mãe que era viúva ainda mais sozinha,
na verdade ela começara a namorar fazia pouco tempo, mas seria um impacto muito
grande para ela. Filhos? Não, não tivera nenhum, nunca namorara, parecia que
Deus apenas brincava com ele. Vinte e um anos de vida e ele não tinha nada, não
tinha alcançado nada, e morreria sem ter feito coisa alguma.
O que mais o atormentava é
que ele iria partir sem deixar ninguém sentindo a falta dele, sem ter tido uma
namorada, uma mulher que o amasse, e agora Inácio estava ali, sentado e na sua
cabeça discutindo com Deus, porque tanta crueldade? O que ele tinha feito? Onde
estava a sua felicidade? Porque não acabava ali mesmo sua angustia?
Estava perdido nesses pensamentos
que nem notou uma sombra e aproximando dele e o chamando, só foi notar, quando
a sombra relou em sou ombro e o chamou:
- O senhor esta bem? – uma
voz suave e preocupada falou.
- Oi?
Foi quando olhou e viu
parado na frente dele uma moça, vestia uma saia jeans ate os joelhos com uma
meia calça de lã preta e ia acabar num par de botas, na parte superior vertia
uma camiseta preta básica e um moletom cinza escuro por cima, segurava um
guarda-chuva que agora protegia os dois de tomarem chuva e ficarem molhados.
Ele ficara tanto tempo ali
sentado, triste que nem notara q começara a chover e ali estava, diante de uma
linda moça. Ele ficou olhando para ela, o rosto dela era lindo, meio redondo,
olhos negros que brilhavam, o cabelo estava amarrado num rabo de cavalo que ia
ate a cintura. Ele ficou tanto tempo olhando para ela, que ela sorriu meio sem
graça e falou:
- O senhor esta bem? Precisa
de ajuda? Tem um hospital ali na outra quadra eu levo o senhor La se precisar.
Depois de perceber o papelão
que estava fazendo, Inácio resolveu abrir a boca:
- Eu estou bem, obrigado.
Mas não preciso de hospital .... Eles já não podem fazer mais nada por mim. E o
senhor esta no céu. Meu nome é Inácio – e esticou a mão em direção da moça.
- Prazer, me chamo Sara –
falou retribuindo o aperto de mão – Gostaria de sair da chuva? Meu tio é o dono
daquela lanchonete ali – apontou para um estabelecimento q ficava do outro lado da praça.
Sem saber muito o que estava
fazendo Inácio se levantou e dividindo o guarda-chuva de Sara, se deixou levar
em direção a lanchonete.
Ali chegando sentaram numa
mesa, ela pediu para o tio fazer um chocolate quente enquanto ela entrava na
casa que fica aos fundos e trazia uma toalha e uma camiseta para ele se trocar.
E ali ficaram, conversaram, lancharam, a conversa fluiu, falaram de quase tudo,
mas Inácio não comentou sobre sua doença terminal. Ali ficaram ate o início da
noite. Quando perceberam que estava tarde, Inácio se levantou, agradeceu por
tudo e tentou pagar pelo chocolate quente e pelo lanche que tinha comido, mas o
tio de Sara, não aceitou, deixou como presente. Sara o levou ate a porta da
lanchonete deram um beijo na bochecha de despedida, meio sem jeitos, e Inácio
saiu caminhando sozinho pela rua, aquela hora da noite a praça estava vazia e
já não chovia. Ele já estava terminando de cruzar a praça quando Sara voltou
correndo para ele, ela não parou, entregou – lhe um papel, lhe deu mais um
beijo e voltou correndo para a lanchonete. Inácio guardou o papel no bolso sem
abri-lo e foi para sua casa. Quando chegou explicou e contou tudo para mãe, sem
nada lhe esconder, e os dois passaram a noite na sala chorando.
Apenas no outro dia, que
Inácio lembrou do papel em seu bolso, nele estava escrito um numero de celular
e uma pequena frase: gostei muito de você, se precisar de um guarda-chuva me
ligue, Beijos”
Aquela simples frase o
deixou feliz, e sem pensar, ligou para Sara, e combinaram de se ver novamente.
A partir daí começou uma
grande amizade, se viam todos os dias, passeavam, passavam horas no telefone,
brincavam, iam ao cinema, já andavam de mãos dadas, mas Inácio nunca contou que
só teria mais 4 meses de vida e ele se entristecia por isso, não era justo que
logo agora que tinha conhecido uma pessoa tão legal, ele teria q abandoná-la.
E assim foi, passaram três
meses nessa amizade colorida, já se beijavam, abraçavam, mas nunca tinham
mencionado em namoro, sempre que ela tocava no assunto, Inácio dava um jeito de
fugir, ele não queria dar esperanças para ela, nem contar a verdade. Mas nesse
meio tempo, ele piorava, ficava mais magro, mais fraco, o câncer o comia por
dentro. Mas ele fazia de tudo para ela não perceber, ia ao medico escondido,
tomava remédios escondido, vomitava sangue sem que ela percebesse, para ela,
ele estava apenas com uma anemia sem importância.
Mas apesar de toda a alegria
que passava ao lado dela durante o dia, ao deitar, ele chorava e em pensamentos
brigava com Deus.
- Porque isso? Não terei
direito a uma vida completa? Porque me mandar logo agora alguém como ela? Eu a
amo mas não posso nem pedir em namoro, porque não vai durar, vou morrer e vou
deixá-la. Porque tudo isso? Alguém ai em cima não gosta de mim, cadê meu anjo
da guarda? Sou tão mal assim que nem tive um?
Toda noite era esse
tormento, dormia chorando, e acordava sorrindo com uma mensagem de bom dia de
Sara pelo celular. E assim se passaram três messes e meios, ele já sentia que
seu fim estava próximo, já não conseguia caminhar muito, tinha tremores pelo
corpo, sua visão embasava ele já quase não saia de casa, sempre chamava Sara
para ir assistir um filme com ele, e ali passavam a tarde toda, deitados juntos
assistindo e namorando. Ate que um dia:
- Amor, quando vai me pedir
em namoro? Colocar um anel no meu dedo? – ela perguntou
Ele olhando para ela, deixou
cair uma lagrima.
- Porque chora? Não quer
namorar comigo? Sei que esta doente, essa anemia esta ruim, mas você não vai
morrer, vai passar.
- Deus sabe, como eu quero
namorar contigo, e viver para sempre ao seu lado.
- E então?
Ele pensou rapidamente e
sabendo que seu fim era próximo, resolveu lhe propor:
- Amor, eu te amo, você
mudou a minha vida, prometo que sempre vou estar do seu lado, de um jeito ou de
outro, vou viver para sempre com você.
- Eu também meu amor. Juro
que vou te amor para sempre e por todo o sempre viver ao seu lado.
Inácio deu um sorriso
sincero, e se esforçou para não deixar que uma anciã de vomito de sangue
saísse. E mais uma lagrima saiu de seus olhos
- Amor, eu te peço em
namoro, mas antes quero fazer um teste com você.
- Qual?
- Você consegue ficar um dia
inteiro sem estar ao meu lado, e sem entrar em contato comigo?
- Porque pergunta isso? –
ela o olha desconfiado.
- Se você conseguir ficar
esse tempo sem me ver ou falar comigo amanha amor, eu te peso em namoro no
outro dia.
- E porque quer ficar um dia
sem mim?
Sem saber o que falar, e não
querendo contar a verdade, para poupa-la, ele fala a primeira coisa que lhe vem
a mente:
- Vou comprar a sua aliança
amor. Vai ser surpresa, quero te poupar.
- Do que? Serio que vai
comprar a aliança?
Ele confirmou, e ali se
beijaram e passaram a primeira noite juntos, ao amanhecer, ela se despediu
dele, lhe beijou e disse:
- Te vejo daqui 24 horas meu
amor. Amo você.
E ali ela saiu, para passar
seu longo dia longe do seu amor. Para não correr a tentação, ela desligou o
celular e o deixou no fundo da bolsa, foi para sua casa, tomou banho, e pensou
como passar um dia sem ver ele. Resolveu ir para o shopping, ir na casa de
amigas, e dormiu cedo naquele dia, ao amanhecer, se trocou e correu para casa
de Inácio, estava com muitas saudades e não via a hora de poder vê-lo.
Ao chegar na casa dele,
estranhou a movimentação, algo estava errado, aviam muitos carros parados na
frente da casa dele, e o portão e a porta da frente estavam abertos. Ela criou
coragem e entrou, La dentro encontrou o que ela menos esperava, um caixão no
meio da sala, e o pior de tudo, seu amor, Inácio estava dentro dele.
Ela não chorou, ficou apenas
ali parada.
A mãe de Inácio se aproximou
dela, vinha acompanhada do namorado, ela chorava, ao chegar perto lhe estendeu
um envelope:
- Eu não sei o que dizer
Sara minha filha, foi a vontade dele, esta tudo explicado aqui. Ele escreveu
para você – falando isso, entregou o envelope a Sara
Ela pegou o envelope, deu
meia volta e saiu da casa. Não podia mais ficar ali, ela caminhou ate chegar à
mesma praça onde tinham se conhecido, e sentou no mesmo banco. Só depois abriu
o envelope e leu a carta, mas ela já sabia de tudo.
“Meu amor
Parabéns,
você conseguiu, passou um dia sem mim. Me faz um favor? Repita isso para o
resto de sua vida...
Me
desculpa por tudo, você foi um anjo em minha vida. Quando me conheceu naquela
praça, eu havia acabado de receber a noticia q ira morrer dentro de 4 meses, e
justo nesse dia eu conheci a minha salvação. Ao seu lado foram os melhores 4
meses da minha vida. Mas hoje eu não aguentei e parti. Nunca te contei nada
porque não queria te preocupa, mas pensei só em mim mesmo, e em vez de me
afastar eu me apaixonei por voce, me desculpa se vou te fazer sofre.
Mas
minha promessa ainda vale: Vou viver para sempre ao seu lado, Te amo, e um dia
nos veremos.
Ass.
“Inácio”
Quando chegou ao fim do
texto, já não existia Sara sentado ao banco, estava vazio, e uma folha caia
numa possa de água da chuva anterior.
Epilogo
Inácio acordou e não sabia
onde estava o ambiente estava muito claro, uma luminosidade branca muito forte,
lhe ardiam a visão, ele estava deitado numa maca. Sentou nela e ouviu uma voz:
- Que bom que acordou
Inácio, estávamos te esperando.
- Quem é você? Onde eu
estou?
- Do que se lembra filho?
- De eu tomando um líquido
amargo e depois, muito sono, e ai... EU morri?
- É o que parece.
- Você é Deus?
- Não – falou o homem,
soltando uma gargalhada – Eu sou Uriziel, seu anjo da guarda.
- ...
- Sem palavra filho?
- É
Uriziel se aproximou de
Inácio. Ao ver o homem, Inácio se espantou, e pulou da maca, ficando em PE,
diante do anjo.
- O senhor – ele falava
gaguejando e tremendo – O senhor é o tio da Sara, o senhor também morreu?
- Eu? Não, definitivamente
não – deu outra risada – Eu estava no meu corpo humano, quando voce me viu com
a Sara.
- E ela como esta?
- Bem.
-Que bom...
- Porque fez isso?
- Isso o que? Não deixar que
ela participasse dos meus últimos minutos? Não preferi partir sozinho,
poupá-la. Mas fui egoísta, não devia ter me apaixonado, era passageiro. Agora a
deixei lá sozinha, triste. Posso ser o anjo da guarda dela? – perguntou demonstrando
uma grande animação.
- Lamento, mas não.
Inácio fica triste
novamente.
-Você quer vê-la?
-Sim
- Olhe para traz.
Incrédulo, Inácio obedeceu,
e ao se virar, deu de cara com Sara. Só que dessa vez, ela estava num vestido
branco, possuía assas enormes, com penas de um tom cinza claras, seu cabelo
estava solto e ela sorria.
- Você também morreu?
- Não – ela falou sorrindo –
Eu já estava morta quando te conheci, já era um anjo. Eu era sua alma gêmea,
mas eu morri num acidente de transito há um ano. Eu te via daqui, triste,
chorando sentindo minha falta. Então uma ordem do Homem, me permitiu descer ate
a terra, e acompanhar você, te trazer paz e felicidade nos seus últimos dias. Apaixonei-me
de verdade por você.
- Então você sabia de tudo?
Que iríamos nos ver aqui, depois?
- Sim e não. Eu sabia que
você iria morrer sim, mas não tinha certeza se eu poderia te ver aqui.
- Como assim?
- Isso eu respondo – disse
Uriziel – Você era humano, tinha alma, você poderia acabar no inferno
dependendo dos seus atos. Mas o que te trouxe aqui, foi por ter se sacrificado,
para não deixar Sara sofrer, por resistir sozinho, pelo seu bom coração. E
acima de tudo, sua promessa de viver para sempre ao lado dela. O amor de vocês
é tão forte que uniram os dois nesse plano. Acho que aqui sim, vocês vão poder
ficar juntos para Todo o Sempre – ele abre um sorriso. Enfim, meu serviço aqui
terminou, Sara vai te mostrar os procedimentos, você agora é um anjo filho.
Vamos nos ver muito. Mas acho que ate mesmo vocês, precisam de um tempo a
sós. Alias só morremos uma vez na vida,
e nos tornarmos anjo merece uma comemoração. Vou deixar os anjinhos a sós. Ate.
E dizendo isso, Uriziel,
bateu assas e saiu voando.
Inácio se vira para Sara e a
abraça forte, lhe beija e pergunta:
- E agora?
- Agora? – responde ela –
Agora você vai ter que me agüentar para sempre ao seu lado.
- Sabe de uma coisa? Eu vou
adorar isso. Amo você, minha anja. Você me ensina?
- A que?
- Voar, sempre quis fazer
isso.
E assim sorrindo, se deram
as mãos e saíram dali voando juntos, teriam muito tempo para conversar, se amar
e aprender novas lições, mas não tinha pressa, teria toda uma eternidade
juntos.
Por :Jônatas Oliveira Assis
Por :Jônatas Oliveira Assis